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Nesta quarta-feira (14), Marcha das Margaridas e das Mulheres Indígenas deve somar 100 mil participantes pelas ruas de Brasília.

Aos 64 anos, Maria dos Reis Silva deixou a rotina como trabalhadora no campo no assentamento onde mora no Piauí para marchar por direitos. Alaíde Moraes, 55, saiu de Minas Gerais. Já Osena Sfair, 56, atravessou metade do País, ao deixar o Amapá. Elas são algumas das milhares de mulheres que participam nesta quarta-feira (14) da Marcha das Margaridas, em Brasília (DF).

Organizada pela Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura) a cada quatro anos, a marcha ganha relevância no contexto do governo do presidente Jair Bolsonaro, que ironizou políticas de desmatamento da Amazônia e já liberou o uso de 42 tipos de agrotóxico só neste ano. Esta é a primeira vez também que o ato contará com participantes da Marcha das Mulheres Indígenas, que ocuparam as ruas da capital na última terça-feira (13).

Nascida nas comunidades ribeirinhas e das reivindicações das comunidades rurais, a marcha é uma homenagem à ativista de direitos para essa população, Margarida Maria Alves, que foi brutalmente assassinada no dia 12 de agosto de 1983 no estado da Paraíba. Neste ano, o crime completa 36 anos.

MARCELLO CASAL JR./AGÊNCIA BRASIL
Marcha das Margaridas acontece desde 2000 na capital federal.

Foi no campo que Maria dos Reis Silva começou a trabalhar, aos 5 anos, nas atividades que apreendeu com os pais. “Trabalho na roça e com agropecuária”, contou ao HuffPost a piauiense de 64 anos. Mesmo aposentada, Silva não descansa. “Como a gente foi criada naquele sistema, a vontade é de trabalhar.”

Moradora do assentamento Posto dos Negros em Altos (PI), Silva teve 12 filhos ao longo da vida. Metade trabalha com ela, três foram morar em diferentes estados e outros três morreram. É a primeira vez que participa da marcha em Brasília. “Nós sabemos que nós mulheres somos sempre muito sacrificadas.”

Secretária da Terceira Idade do sindicato rural de sua cidade, Silva diz acreditar que as novas regras de pensões, aprovadas na reforma da Previdência, podem ser prejudiciais à população. “Pode prejudicar e muito. Nós do campo chega [sic] aos 50 anos e está quase um rato.”

MARCELLA FERNANDES/HUFFPOST BRASIL
“Nós sabemos que nós mulheres somos sempre muito sacrificadas”, disse Maria dos Reis Silva.

De acordo com a reforma, quem recebe pensão por morte terá direito a 60% do valor a que o segurado falecido tinha direito com um acréscimo de 10% por dependente. Uma viúva com dois filhos, por exemplo, passaria a receber, 80% da pensão. Hoje é possível receber o valor integral, desde que até o teto do INSS, de R$ 5.839,545.

Para a agricultora familiar Alaíde Moraes, a liberação de agrotóxicos pelo governo federal tem um impacto específico para as brasileiras. O Ministério da Agricultura autorizou a utilização de 42 novos agrotóxicos no País, ampliando o recorde de pesticidas liberados pelo governo federal neste ano.

A liberação de agrotóxico é matar a população aos poucos. É uma guerra biológica.Alaíde Moraes

“Nós, mulheres, nos preocupamos em produzir um alimento de verdade. Quando libera agrotóxico, contamina tudo. Contamina a água, contamina o ar. Se a mulher não tem relação direta com a agricultura, mas o marido tem, ao lavar a roupa intoxicada, ela se intoxica. A liberação de agrotóxico é matar a população aos poucos. É uma guerra biológica”, disse à reportagem.

Moradora de Barbacena (MG), Moraes também chamou atenção para os impactos da mineração.

″É um crime que está acontecendo em Barão de Cocais. Vem tocando a sirene que a represa vai romper há meses e as pessoas não têm sossego. Dormem com o olho aberto. Cada dia que passa, vai cedendo um pouco. Aquela angústia de ficar sem saber o que fazer”, contou. Ela acompanha atenta as sequelas de Brumadinho. “Até agora nenhuma justiça foi feita.”

MARCELLA FERNANDES/HUFFPOST BRASIL
“A liberação de agrotóxico é matar a população aos poucos. É uma guerra biológica”, disse Alaíde Moraes.

É a mulher que dá nome à marcha que inspira Osena Sfair a estar presente no evento pela quarta vez. “Sou sindicalista e nasci numa comunidade rural e a Margarida foi uma sindicalista. Foi uma mulher que lutou e me identifiquei muito com ela porque não consigo ficar parada diante de injustiça.”

A vida de Sfair também é voltada para a luta coletiva, o que lhe custou o casamento. “Minha vida é voltada para o social. Inclusive tive relacionamentos e me separei por causa disso. É difícil de conciliar. Alguns não entendem. É uma missão”, diz.

Diretora do sindicato dos servidores públicos do Amapá, a professora diz que a educação não chegou ao campo. Um dos motivos é a falta de infraestrutura.

“Com muita luta, as mulheres conseguem levar os filhos para a capital. Muitos quando se formam, não querem voltar. No nosso estado, tem lugar sem acesso à água tratada, energia, saúde”, completa.

MARCELLA FERNANDES/HUFFPOST BRASIL
“Minha vida é voltada para o social. Inclusive tive relacionamentos e me separei por causa disso”, disse Osena Sfair (foto).

Além da regularização fundiária, as mulheres de comunidades quilombolas também chamam atenção para questões raciais.

“Estamos sofrendo todo dia um racismo institucional que é perda de espaço, dizer que não há quilombo no Brasil, que os quilombolas não precisam de terra”, afirmou Katia Penha, coordenadora nacional da Confederação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas.

A ativista também destaca a importância de enfrentamento à violência doméstica fora dos grandes centros urbanos. “Muitas de nós estão sendo assassinadas no campo”, disse. “Cada dia que passa nossas pautas são desmontadas por esse governo. A marcha vem para a gente unificar nossa força e continuar resistindo no campo”, completa.

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